quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Romaria dos Navegantes e o Sermão de Irmão Antônio

por Luiz Antônio do Nascimento Moura
A Imagem da Santa Mãe de Jesus, a Nossa Senhora dos Navegantes, deslocou-se via fluvial da Comunidade de Pescadores Z-5, Ilha da Pintada, Porto Alegre, ontem, 02, por volta de 9:30, AM, e percorreu um trajeto até próximo a convergência das águas do Rio Jacuí com o Gravataí, na divisa de Canoas, passando sob a Ponte, cartão postal de Porto Alegre, nas proximidades ao Santuário.

Durante a passagem com mais de uma dezena de embarcações, e centenas de fiéis, alguns populares conseguiram chegar próximos às margens do rio e acenaram rendendo homenagens para a Santa conduzida pelos romeiros.

O Irmão Marista Antônio Cechim que é autor do livro Empoderamento: Uma Pedagogia Popular, autografado durante a realização do Fórum Social Mundial 2010, Canoas, fez uso da palavra. Durante a preleção de lançamento do Livro, juntamente de seus convidados especiais, o Senador da República Paulo Paim, o Cantor Missioneiro Pedro Ortaça e o Vereador Ivo Fiorotti, o modo de ser guaranítico em Busca da Terra Sem Males, o extermínio de milhares de indígenas organizados em torno dos Sete Povos das Missões, considerada uma República de economia socialista por diferentes historiadores, pelos bandeirantes paulistas, para servir de mão de obra escrava nos canaviais, foi objeto de análise que agora voltou a enfocar durante a Romaria de Nossa Senhora.

Desperta curiosidade o fato de nenhuma vírgula do conteúdo poderoso dito por Ir. Antônio na defesa das águas e a tradição romeira de Nossa Senhora ter servido para notícias nos jornais de hoje!

O professor Antônio, como é conhecido o Irmão, citou direta e indiretamente Maus, Boas do funcionalismo, até Claudé Levi Strauss e Oscar Agueiro, da Terra Sem Males, e também, discorreu em sua fala através do multiculturalismo crítico.

Em termos de opinião, o que o ativista das organizações de base da Igreja Católica construiu foi uma tese antropológica, teológica e também psicanalítica, quando articulou a denúncia daquilo que tipificou como sendo duas espécies de pecado original ainda não espiados em POA, que é o velamento das dívidas históricas dos porto-alegrenses dominados por uma minúscula elite, para com os negros e os indígenas guaranis. Os negros, por não ter a liberdade de cultuar atualmente mais de 50 imagens representativas com velas acesas na Igreja do Rosário e os guaranis pela invisibilidade a que são submetidos como completos mendigos sem nenhuma política de valorização cultural.

Além disso, reivindicou o papel educador para a importância e o cuidado com as águas que a Romaria Carrega nos seus mais de cem anos de história dizendo que “a Romaria dos Navegantes é a mãe de todas as Romarias, das mais de 35 romarias com percurso fluvial no Rio Grande do Sul” e, a imagem de Nossa Senhora, vista à partir da Ilha da Pintada, “Ela é a fada madrinha das águas!”

Depois de adentrar no campo da Ecologia denunciou que bens culturais da cultura popular estão sendo expropriados e as imagens de devoção inclinadas ao sincretismo da Igreja do Rosário estão mantidas em grades, como forma de afastá-las dos devotos que acendem velas, causando prejuízos incalculáveis aos integrantes da cultura de matriz afro da cidade de Porto Alegre e Região.

Irmão Antônio disse que sendo as velas proibidas como está atualmente, as culturas populares, em especial de matriz africana, estão excluídas da igreja, por obra de uma ou duas pessoas alheias a vontade popular.

Denunciou ainda que um dos pecados é que a igreja não quer falar sobre o massacre aos guaranís após a chegada açoriana provocada pelo espólio patrocinado pelos bandeirantes paulistas em função dos canaviais, durante o regime da escravidão indígena e negra no Brasil.

Profissionais de diferentes veículos da comunicação estavam presentes acompanhando o evento, tanto de organismos locais, bem como da esfera estadual, porém, calaram diante da estrondosa denúncia.

Além de toda a explanação, proferida no sermão de Irmão Antônio Cechin, veio a exortação, que a fé em Nossa Senhora é que move o povo em prece.

Lembrou ainda do herói de etnia guaraní, Sepé Tiarajú, que andava livre pelos campos, desde os Sete Povos até Rio Pardo, por onde também transpassam as águas em seus percursos que desembocam no Grande Guaíba, que é uma palavra herdada dos povos da tradição, e documentos comprovadores de suas passagens por Pelotas e Rio Grande, até ser morto em batalha nos campos de São Gabriel, já foram encontrados, e esta liderança do herói indígena deve ser mantida na nossa memória enquanto exemplo de bravura na defesa de seu povo.

Um comentário:

  1. O irmão Antônio é profeta da conteporaneidade, sempre denumcia e aponta caminho para soluções dos problemas. É em pessoas como ele que devemos nos espelhar...

    Alcindo

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